Revolução na Educação – parte 1

Nesse mês de junho de 2018 chegou às bancas e livrarias a Revista Você S/A, da editora Abril e que tem em sua capa essa chamada: REVOLUÇÃO NA EDUCAÇÃO, ilustrada por um(a) jovem com óculos de realidade virtual.

Minha pretensão é, num conjunto de textos, fazer algumas considerações sobre as questões abordadas na reportagem.
Sabemos que não se trata de uma revista focada em educação, mas em carreira e mercado; no entanto, a longa reportagem nos apresenta informações interessantes e, em diversos momentos faz com que nós, educadores, nos coloquemos em reflexão.
A reportagem aborda as tendências tecnológicas, os interesses de empresas de ensino, mas não tem como não tratar do papel do professor.

Na apresentação da revista, a editora Tatiana Sendrin tece o seguinte comentário – que se reproduzirá no interior da reportagem:
“Vivemos um momento em que o ensino, em todas as suas definições, passa por uma profunda transformação. Não só do perfil do professor – que vira um “mediador de conteúdo” – mas também das metodologias de educação e do mercado em si, aquecido pela chegada das escolas internacionais e pela proliferação de das Edtechs, as startups do setor. Porém, a revolução mais importante vem com o conceito long life learning, que prega que o processo de aprendizagem deve ser contínuo, não restrito a alguns anos da infância e da adolescência. Todos nós, agora, somos eternos estudantes”.

Eu não tenho dúvidas de que o perfil do professor mudará, na verdade acredito que deve mudar e já percebemos em outros países ou experiências isoladas no Brasil essa mudança, em parte caminhando para ações de “mediação”.

No entanto a expressão usada a seguir é que chama a atenção e já demostra um certo viés da reportagem ou do conceito de educação expresso aqui – a expressão é “conteúdo” – ou seja, o professor deve ser um “mediador de conteúdo” e isso apenas muda a função do professor, que não é mais o dono, o transmissor do saber, mas um mediador, mas não muda a educação, baseada em conteúdos; esse é o primeiro equívoco.

Acredito que o papel de mediador é extremamente relevante e deve se tornar efetivamente o papel do professor.
Mas, na prática, o que é mediar? e ele vai mediar o que?

O professor mediará as pesquisas, os debates, os trabalhos individuais e coletivos de estudantes, portanto mediará procedimentos educativos e, de antemão mediará a escolha do que deve ser estudado, pesquisado, debatido e trabalhado. Portanto algo muito mais significativo do que o conhecimento por si mesmo.

No entanto, se a educação deixa de ser a transmissão de um conhecimento estático – e na maioria das vezes inútil – ela se propõe a construir novas práticas que em sua essência são colaborativas, de integração, que envolve gente e, portanto, o professor será o mediador dessa gente, ou seja, o professor será mediador das relações sociais entre pessoas.

Num primeiro momento mediando as relações dos estudantes que, conjuntamente, pesquisam, discutem, constroem seu conhecimento, mas terá que – direta ou indiretamente – mediar outras relações, que envolvem os demais agentes desse processo, que ocupam outras funções na escola ou fora dela, como os pais; portanto algo muito superior e significativo do que mediar “conteúdo”.

É importante perceber que mediar é muito mais do que ficar no meio, é muito mais do que dar a palavra final, que seria a palavra verdadeira. (alias aqui cabe um parênteses – a própria palavra professor, latina, deriva de Professar, em nossa cultura ela tem uma conotação cristã, daquele que professa, daquele que prega sua verdade).

Mas quais habilidades deve ter o professor para se tornar um bom mediador?

Quando oriento jovens na escolha de carreira, trabalho como ponto inicial o autoconhecimento, não apenas de aptidões que poderiam definir a “escolha certa”, mas algo um pouco mais profundo, para que ele entenda minimamente seus potencias e seus maiores desafios.

Os procedimentos seguintes olharão para as profissões e para as possibilidades de mercado, no entanto, esse coaching vocacional encontra uma nova realidade, profissões novas são criadas todos os anos e, em contrapartida, existem profissões que desaparecem ou que desaparecerão.

Isso significa que estamos diante de uma nova realidade e que podemos chama-la de revolucionária, pois altera profundamente algo que existe há séculos, as profissões estáticas e tradicionais. Durante séculos encontramos tecelões e sapateiros, durante séculos encontramos médicos e advogados, durante séculos encontramos professores, construtores ou comerciantes.

Algumas atividades são mais recentes, de décadas e não de séculos, como dentistas ou motoristas, mas mesmo as mais recentes vivem mudanças significativas. Isso significa que a tendência de seguir a profissão dos pais ou aquela que tem mais evidência no mercado está com os dias contados.

Muitas profissões continuarão existindo – pelo menos pela próxima década – mas mesmo assim terão seu perfil alterado e exigirão constante aperfeiçoamento e atualização e daí temos um segundo dilema no processo de escolha que antecede o vestibular, definir-se por algo que viverá mudanças e exigirá constante atualização. Jovens que normalmente vão para as escolas como uma obrigação e que num primeiro momento perceberão que a escola não vai mais acabar, terá que se reciclar constantemente pode ser percebido inicialmente como uma dor; infelizmente, será percebido negativamente.

O que isso tem a ver com o professor?

Mesmo o professor já formado e atuante, que permanecerá no mercado nas próximas duas décadas – e as seguintes – precisará se atualizar, precisará perceber que a realidade colocada para os jovens é a realidade do professor, mas que não foi pensada nem planejada por ele quando fez a opção pela docência. O aprendizado constante e principalmente a ação como mediador não faz parte da realidade da grande maioria dos professores.

Assim como aqueles que ingressarão no mercado de trabalho devem perceber o dinamismo de profissões de suas ações, o mesmo está colocado para o professor.

Existe uma ideia geral de que sempre aprendemos e sempre vale a pena aprender, mas terminada a faculdade e eventualmente uma pós-graduação ou especialização, os novos aprendizados devem vir por prazer e não por obrigação. Portanto essa história que agora aparece e que trata do constante aprendizado (long life learning) surge como uma exigência e não como uma escolha pessoal, surge como uma cobrança desse ser abstrato e renegado chamado de “mercado”, essa coisa que muitos chamam pejorativamente de o “deus mercado”, aquele que manda em todo, aquele a quem devo obedecer mas, a quem EU NÃO ESCOLHI obedecer, mas se impõe a mim.

Prof. Claudio Recco
Coach Educacional