Imigração japonesa no Brasil

1 – O Japão Meiji

A chamada Era Meiji caracteriza a história do Japão entre 1868 e 1912. O nome significa “governo esclarecido” época em que o governo procurou um modelo de desenvolvimento que promovesse a modernização a partir dos modelos industriais ocidentais. Toda a transformação radical operada no antigo regime de características feudais valeu o nome de “Era do Progresso”, quando ocorreram mudanças estruturais como a instauração da monarquia constitucional em 1889, a formação de universidades, a criação de um gabinete parlamentar em 1885, a separação dos poderes legislativo e executivo, a liberdade religiosa em 1873, uma reforma na agricultura e nas leis sobre os impostos das zonas rurais que promoveram a eliminação de antigos privilégios de origem medieval.

As idéias de “modernização e progresso” representaram o inicio da adaptação do país ao modelo capitalista em desenvolvimento desde a segunda Revolução Industrial, acompanhada pela reestruturação da economia em nível internacional, caracterizada por novo processo expansionista, neocolonialista.

Em 1854, o governo foi forçado a assinar um acordo e promoveu a abertura dos portos aos navios mercantes dos Estados Unidos e, em seguida, fez acordos semelhantes com a Grã-Bretanha, Rússia e Holanda, que provocaram a revolta de grande parte da população japonesa. Esse processo de abertura envolveu o Convênio Tokugawa, a partir do qual o aborto foi considerado crime, marcando o fim da restrição aos nascimentos. A conseqüência mais importante desse acordo foi o crescimento da população, responsável pelo superpovoamento.

Nesse contexto, percebemos a ação dos países ocidentais em relação ao Japão, com a pretensão de abrir os mercados japoneses aos produtos europeus e estadunidenses, mas percebemos também a rápida adequação do país aos novos mecanismos econômicos na medida em que desenvolve também sua própria política de expansão imperialista, sobre regiões asiáticas. É dessa forma que entendemos o avanço japonês no final do século XIX com as conquista de Taiwan em 1895, a Guerra com a Rússia em 1904 e a conquista da Coréia em 1910.

A reorganização da propriedade da terra, acompanhada de uma política tributária centralizadora, foi a medida mais controversa do período, pois descontentou aqueles que viam os seus privilégios diminuídos e os incitou à rebelião. Houve então uma série de confrontos militares, entre 1874 e 1877, representando grave crise política, que culminou com reformas profundas que atingiram principalmente o setor rural e onde se sentiu mais as conseqüências nefastas, com o grande aumento do desemprego e a marginalidade que forçaram o governo a permitir a emigração.

Caracterizado o aumento populacional, a principal medida do governo foi o estímulo à emigração, iniciada em 1869 com poços operários no Havaí e aprofundada nas décadas seguintes. Desde o ano anterior se realizavam discussões entre representantes dos governos japonês e brasileiro sobre imigração, porém nesse período a maioria dos emigrantes se dirigia à América do Norte e outras regiões da Ásia. Em 5 de novembro de 1895, em Paris, Brasil e Japão assinaram o Tratado da Amizade, Comércio e Navegação.

2 – Os interesses

Os principais motivos que impulsionaram o acordo de imigração entre Japão e Brasil foram, por parte dos japoneses, o grande crescimento da população, a estabilidade econômica momentânea do Brasil e a possibilidade, cada vez mais aparente, de que outros países fechariam seus portos aos imigrantes japoneses, dentre os quais os EUA e Canadá. Para o governo paulista havia a necessidade de mão-de-obra para a lavoura e o interesse em incrementar as relações comerciais entre Brasil e Japão propiciando a abertura de um novo mercado consumidor para o café brasileiro.
Entre eventos que antecederam a assinatura do Tratado, destaca-se a abertura brasileira às imigrações japonesas e chinesas, autorizadas por Decreto governamental de 1892. Com isso, em 1894 o Japão envia o deputado Tadashi Nemoto para uma visita, em cujo roteiro foram incluídos os Estados da Bahia, do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. O deputado foi o principal responsável por incentivar o governo e empresas de emigração japonesas, recomendando o Brasil como país apto a acolher os imigrantes de seu país. Os primeiros imigrantes que viriam trabalhar na lavoura de café deveriam partir em 1897 do Japão, no entanto esse processo foi cancelado devido à retração no mercado mundial, que afetou a produção de café, situação que perdurou até 1906, quando foi assinado o Convenio de Taubaté. Tal convênio obteve recursos para estimular a produção cafeeira em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, foi responsável por novo salto na economia cafeeira do sudeste.

Em 1907, o governo brasileiro publica a Lei da Imigração e Colonização, permitindo que cada Estado definisse a forma mais conveniente de receber e instalar os imigrantes e em novembro do mesmo ano, Ryu Mizuno, considerado o pai da imigração, fechou acordo com o governo de São Paulo, para a introdução de 3 mil imigrantes japoneses num período de três anos. Assim, no dia 28 de abril de 1908, o navio Kasato Maru deixa o Japão com os primeiros imigrantes, rumo ao Brasil.

3 – Os imigrantes e o Brasil

Esse grupo de imigrantes japoneses chegou ao Brasil em 18 de junho de 1908. Desembarcou no porto de Santos com destino certo; os 793 imigrantes recém-chegados foram distribuídos em seis fazendas paulistas e enfrentaram um duro período de adaptação, caracterizado por forte preconceito e discriminação, além das doenças endêmicas e a inexperiência na agricultura regional.

A maioria das famílias orientais abandonou as diversas fazendas nas quais se encontravam. Mesmo assim em 1910 aportou o segundo navio trazendo novo grupo de imigrantes japoneses, que encontraram situação semelhante.

Os imigrantes japoneses desembarcavam no porto de Santos e depois seguiam de trem para São Paulo, se abrigavam na Hospedaria dos Imigrantes, onde era feita a inspeção alfandegária, onde permaneciam até serem contratados pelos fazendeiros.

Depois de encerrado o contrato nas fazendas, os imigrantes procuravam desenvolver sua própria lavoura, produzindo café. A maioria também plantava arroz para venda e consumo próprio. Até a década de 50, a maioria dos japoneses se dedicou à agricultura.

Os imigrantes se organizavam em grupos nas mesmas regiões e normalmente formavam associações que se preocupavam com as questões sociais do grupo e com a construção de uma escola de língua japonesa que cuidava da formação cultural das crianças.

Em São Paulo, com a crise da cafeicultura no final de década de 20, muitos imigrantes se dedicaram ao cultivo do algodão, com o objetivo de vender para empresas japonesas, além de se dedicarem ao cultivo de hortaliças e frutas. Além de São Paulo, os imigrantes de instalaram no norte do Paraná e nas décadas de 20 e 30 alguns grupos se estabeleceram na Amazônia.

Na década de 30 a política industrialista do governo Vargas desestimulou a produção agrária e, ao contrário, desenvolveu uma política que estimulou a urbanização, como reflexo, parte dos imigrantes trocou a zona rural pelas cidades, movimento que se intensificou após a Segunda Guerra Mundial.

A derrota japonesa na Segunda Guerra e a crise imediata que se seguiu no país sepultou de vez o sonho de retorno dos imigrantes, ao mesmo tempo em que tomaram consciência de suas raízes brasileiras.

4 – Vitoristas e Derrotistas

Um dos episódios mais controvertidos relacionados à imigração japonesa no Brasil, diz respeito à organização “Liga do Caminho dos Súditos”, mais conhecida como “Shindo Renmei”, liderada pelo coronel Junji Kikawa. Considerados “Vitoristas” ou “Kachigumis”, não admitiam a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial e tinham como objetivo oprimir os “Derrotistas” ou “Makegumis” que feriam a imagem do Japão ao assumir a derrota na guerra.

Muitos “Derrotistas” foram mortos pelo fato de reconhecerem publicamente a derrota japonesa. Recebiam dias antes de sua execução uma carta aonde vinha escrito: “deixe o pescoço lavado” e tinham pichado nas frentes de suas casas os dizeres: “traidor da pátria”.

A policia brasileira tentou identificar os integrantes da organização usando para isso um método conhecido como “fumie” ou “pisar na figura”. Consistia em colocar a bandeira do Japão ou a imagem do seu imperador no chão, obrigando a pessoa a pisá-la, caso se recusasse poderia ter certeza que era um “Vitorista”.

Em 1946 o interventor federal do Estado de São Paulo, José Macedo Soares reuniu no Palácio dos Campos Elíseos mais de quatrocentos japoneses, tentando convencê-los da derrota japonesa, lendo uma série de documentos, principalmente o Rescrito Imperial. O esforço foi em vão, pois os japoneses não assumiam a derrota e se recusaram a assinar um documento reconhecendo que sua pátria havia se rendido.

As ações da Shindo Renmei só foram interrompidas após prenderem trezentos membros e deportarem 80 dirigentes da organização que foi considerada extinta em março de 1947. Em setembro do mesmo ano foi apresentada uma proposta que proibia a entrada de japoneses no Brasil justificando que o fanatismo e extremismo desse povo poderia ser prejudicial ao país. Estavam presentes 199 deputados e a votação terminou empatada: 99 votos foram favoráveis e 99 foram contra. O voto decisivo foi do presidente da mesa, deputado Melo Viana  contrário à proposta.

 

Prof. Claudio Recco

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